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Eleições sob pressão: o avanço da desinformação e dos ataques cibernéticos
Jun 24, 2026
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| 6/24/26 | ![]() Eleições sob pressão: o avanço da desinformação e dos ataques cibernéticos | Há mais de uma década, as chamadas ameaças híbridas deixaram de ser apenas um conceito acadêmico para se tornar uma realidade capaz de influenciar sociedades em todo o mundo. Entre os momentos mais vulneráveis a esse tipo de ação estão os períodos eleitorais. Segundo especialistas, os seis meses que antecedem um pleito concentram os maiores riscos de interferência no debate público e na confiança dos eleitores. Júlia Valente, Correspondente da RFI em Helsinque Em uma sociedade cada vez mais digital e interdependente, os conflitos também assumem novas formas. Não se trata mais apenas de bombardeios, invasões ou ataques militares convencionais. Ciberataques, campanhas de desinformação e pressões econômicas também podem ser utilizados para influenciar países e sociedades. Esse conjunto de estratégias é conhecido como ameaças híbridas, ações capazes de comprometer a estabilidade política, a segurança nacional e a economia de países em todo o mundo. Em Helsinque, na Finlândia, está localizada a sede do Centro Europeu de Excelência para o Combate às Ameaças Híbridas (Hybrid CoE). Criada em 2017 em parceria com a União Europeia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em um contexto de crescente preocupação dos governos com o avanço desse tipo de ação, a instituição apoia seus 35 países membros com pesquisas, treinamentos e análises voltados à prevenção e ao combate dessas ameaças. Martha Turnbull, diretora da área de Influência Híbrida do Hybrid CoE, ressalta que um dos cenários que mais tem registrado o aumento de ameaças híbridas é o período eleitoral. “Vemos uma grande quantidade de desinformação nos cerca de seis meses que antecedem a eleição. Isso se encaixa em um padrão mais amplo que temos observado, no qual esses atores procuram minar a confiança do público no sistema eleitoral e no governo atual”, afirma. Turnbull explica que, à medida que a eleição se aproxima, essas atividades passam a se concentrar em partidos políticos e candidatos específicos, além de tentar desencorajar a participação dos eleitores. “Isso não termina no dia da eleição. Essas atividades continuam nas semanas seguintes, buscando desacreditar os resultados”, complementa. Não são apenas atores externos que impõem ameaças, mas também internos. “No contexto eleitoral atual, observamos que existe uma ligação entre ameaças externas e atores domésticos em muitos países", afirma Turnbull. "Em alguns casos, essa ligação é direta, quando o ator externo orienta diretamente grupos ou indivíduos que estão dentro do país realizando algum tipo de atividade. Em outros casos, a ligação não é tão clara, mas, de forma geral, o que estamos vendo é uma conexão cada vez maior entre esses atores”, diz a especialista. O principal alvo das ameaças híbridas durante períodos eleitorais são justamente os eleitores. Por isso, de acordo com o Hybrid CoE, combater esse fenômeno também envolve fortalecer a educação midiática da população, para que as pessoas consigam identificar e resistir à desinformação. IA muda o cenário das ameaças híbridas Além do cenário eleitoral, o avanço da inteligência artificial (IA) vem transformando a forma como ameaças híbridas são produzidas e combatidas. Segundo Turnbull, atores envolvidos nesse tipo de atividade utilizam modelos de linguagem e outras ferramentas de IA para ampliar sua capacidade de atuação, aumentar a escala das operações e acelerar respostas. “Isso, obviamente, é muito desafiador. Além disso, algumas dessas tecnologias tornam essas atividades muito mais difíceis de rastrear e, consequentemente, mais difíceis de atribuir responsabilidade e de responder a elas”, ressalta. Também existe, no entanto, um aspecto positivo. Governos e instituições vêm utilizando a IA para fortalecer sistemas de monitoramento e resposta a ameaças híbridas. O saldo dessa transformação, porém, ainda é incerto. “Acho que, neste momento, a balança ainda não pendeu claramente para um lado ou para o outro", avalia Turnbull. Europa vê Rússia como principal preocupação O Hybrid CoE está localizado em um ponto simbólico. Helsinque fica a menos de 200 quilômetros da fronteira com a Rússia, país apontado por especialistas como a principal fonte de ameaças híbridas ao continente europeu na última década. “Consideramos que a principal ameaça para a Europa vem da Rússia, mas também observamos o aumento de ameaças por parte do Irã e da China”, afirma Martha Turnbull. Desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, o Hybrid CoE afirma ter observado um aumento significativo das atividades relacionadas a ameaças híbridas. “Temos observado uma atividade concentrada, particularmente por parte da Rússia, no campo da desinformação, que busca enfraquecer o apoio à Ucrânia e minar a disposição do país de continuar lutando com o apoio que recebe de seus aliados”, diz Turnbull. Essas ações podem assumir diferentes formas. “Pode ser propaganda para tentar desgastar a população e conquistá-la para o seu lado. Também pode envolver ataques cibernéticos. Pode incluir ainda atividades militares de pequena escala, como cruzar fronteiras, violar espaços aéreos ou interferir em sinais de GPS”, ressalta. Brasil: a desinformação no centro das ameaças híbridas No Brasil, o tema também vem sendo acompanhado por pesquisadores. O professor de antropologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Piero Leirner, autor do livro “O Brasil no espectro de uma guerra híbrida”, afirma que, no contexto político brasileiro, a principal preocupação está em dinâmicas de desinformação. “Os principais atores que manejaram estratégias híbridas de desinformação e de manipulação política aqui são atores 100% internos, embora ligados a atores externos. Eu acredito que a desinformação não é apenas no sentido de fake news. Isso é uma parte ínfima do problema. Na verdade, é uma estrutura geral que eu chamo de dissonância cognitiva e que muita gente chama de polarização”, diz Leirner. À medida que o Brasil se aproxima das eleições presidenciais de 2026, marcadas para outubro, a desinformação retorna ao centro das atenções no cenário político. Embora as redes sociais tenham ampliado seu alcance e velocidade, o uso dessa estratégia para influenciar o debate público faz parte das campanhas há décadas. Para Leirner, em especial, ataques à credibilidade do sistema eleitoral devem voltar a ocupar espaço no debate público. O pesquisador avalia ainda que as instituições brasileiras não estão preparadas para prevenir e responder a esse tipo de ameaça. “A principal ameaça é o fato de que as nossas principais instituições políticas estão embebidas nesse ambiente, e elas próprias fazem uso disso [da desinformação]”, ressalta. | — | ||||||
| 6/20/26 | ![]() Paris abre suas ruas ao funk brasileiro e às cenas afro-europeias e indie na Festa da Música 2026 | Paris celebra neste domingo (21) a Festa da Música, evento gratuito que ocupa ruas, praças e espaços culturais com programação diversa e descentralizada, marcada nesta edição 2026 pela presença de culturas urbanas, cenas afro‑europeias e a já tradicional participação brasileira. Criada em 1982, a iniciativa mantém a proposta de transformar a cidade em palco aberto no início do verão europeu, sem concentração em um único espetáculo e com ampla circulação de público entre bairros. Neste domingo (21), Paris volta a organizar a Festa da Música, com uma programação que se espalha por toda a cidade e transforma o espaço urbano em um circuito contínuo de apresentações. O evento ocorre simultaneamente em diversos bairros, sem centralização, com acesso gratuito e livre circulação do público ao longo do dia e da noite. Criado em 1982, o evento ocorre sempre no início do verão no hemisfério norte e se baseia na ocupação simultânea de diferentes espaços urbanos. Ruas, praças, museus, igrejas e edifícios históricos recebem concertos e intervenções musicais ao longo do dia e da noite. Desde então, a festa se consolidou como uma das maiores manifestações culturais do país. Democratizar o acesso à música Mais de quatro décadas depois, o modelo permanece praticamente inalterado, sustentado pela ideia de democratizar o acesso à música ao vivo e integrar diferentes práticas culturais no espaço urbano. Concertos ocorrem em ambientes diversos, incluindo museus, igrejas e edifícios institucionais. A edição de 2026 confirma essa escala abrangente, com centenas de apresentações distribuídas entre ruas, parques, centros culturais e margens do Sena. A cidade se transforma em um grande palco aberto, com programação contínua ao longo do dia. A lógica do evento difere da adotada em grandes festivais comerciais. Não há hierarquia rígida entre atrações, nem um palco principal que concentre o público. Artistas emergentes e nomes mais conhecidos coexistem em condições semelhantes. A proposta segue centrada na democratização do acesso à música ao vivo. Artistas amadores e profissionais compartilham a programação espalhada pela capital francesa, em um formato que privilegia a circulação do público e a descoberta de apresentações fora dos circuitos tradicionais. Leia tambémParis vira “Coachella urbano” por uma noite na Festa da Música de 2025 Culturas urbanas e diásporas africanas A edição de 2026 se destaca pela presença ampliada de expressões ligadas às culturas urbanas e às diásporas africanas na Europa. No centro cultural La Place, em Châtelet, no coração de Paris, um encontro entre o coletivo parisiense AFRO LIVE e o londrino ADA Collective reúne artistas associados às cenas afro‑europeias contemporâneas. A programação evita a lógica de um espetáculo central. Em vez disso, privilegia a diversidade de formatos, com apresentações que vão da música eletrônica e afro a concertos em espaços históricos, além de festas de bairro e performances espontâneas. Projetos internacionais também integram a programação, aproximando artistas de diferentes regiões. Parcerias conectam cenas mediterrâneas e latino‑americanas, ampliando o intercâmbio cultural presente na festa. Leia tambémMais de 120 países comemoram Festa da Música nesta sexta-feira Funk brasileiro no Louvre? Um dos exemplos dessa convivência entre linguagens ocorre na igreja Saint‑Germain‑l’Auxerrois, em frente ao Louvre. Das 16h às 23h59, hora local, o espaço recebe o Baile da Euro, com apresentações de DJs e presença marcante do funk brasileiro. A utilização de um edifício histórico para música urbana contemporânea sintetiza a proposta de ressignificação dos espaços. A festa busca transformar temporariamente o uso dos locais, sem romper com seu valor patrimonial. A programação de 2026 também destaca iniciativas ligadas à cena independente e a projetos multidisciplinares. No bairro do Marais, o novíssimo espaço Sabiá Arte & Cultura reúne música, artes visuais e intervenções urbanas. Para Anderson Vital, também conhecido como DJ Sabiá, a iniciativa exigiu um set list caprichado. “Preparei um set com música brasileira, de São Paulo, de Adoniran Barbosa, até o carimbó do Pará, na voz de Eliana Pittman. Então vai ter samba, vai ter groove, vai ter tropicália, forró, carimbó, e algumas surpresas da variedade francesa”, disse à RFI. O espaço também recebe o coletivo Casa Moyo, voltado à promoção de artistas emergentes e à criação de projetos colaborativos. A organização define sua atuação como a construção de uma comunidade criativa baseada em encontros e experimentação artística. Segundo Julia Vital, cofundadora do centro cultural, os organizadores decidiram “[se] aproximar da Casa Moyo, que é um coletivo de artistas, uma casa criativa que gera uma comunidade artística. Esse coletivo defende a ativação dos espaços, a conexão entre culturas e a criação de experiências”. Ela conta ainda que “há pintores, grafiteiros, músicos, DJs, criadores de moda, fotógrafos e designers. A ideia é que nada seja fixo e que as culturas dialoguem, e as estéticas se misturem”. Vital reforçou que o coletivo reúne artistas de áreas diversas e propõe ativar espaços, conectar culturas e criar experiências. "Vamos apresentar várias disciplinas nesta edição do evento. Haverá exposição de imagens com fotógrafos, há designers gráficos, e há também produção de eventos. Para eles, a ideia é de que nada é fixo e que as culturas dialogam, e as estéticas se misturam. Isso fez muito sentido para nós quando os encontramos, e, como acabamos de abrir a loja, quisemos fazer algo juntos", conclui. Circulação Em parques como o Parc des Buttes‑Chaumont, a expectativa é de grande circulação ao longo do dia. A dinâmica da festa incentiva deslocamentos sem roteiro definido, permitindo ao público alternar entre apresentações. A prática de percorrer diferentes bairros é parte central da experiência. Sem programação centralizada, o evento valoriza a descoberta e o contato direto com manifestações variadas. Embora inspiradora para iniciativas internacionais, a Festa da Música não tem equivalente nacional com a mesma abrangência no Brasil. Ainda assim, cidades brasileiras realizam programações gratuitas e eventos que se aproximam da proposta original. A principal diferença está na escala e na ocupação simultânea do espaço urbano, mais estruturada na França. Ao fim da jornada musical, a cidade reafirma a capacidade de se transformar em palco aberto, reunindo estilos, origens e formatos diversos em uma mesma celebração. | — | ||||||
| 6/18/26 | ![]() Museu no sul da França abriga coleção excepcional da brasileira Cérès Franco | A Cooperativa-Museu Cérès Franco, no sudoeste da França, abriga a coleção de arte única e excepcional da crítica de arte, curadora e galerista brasileira. Depois de três anos fechada para reforma, a instituição, instalada em uma antiga cooperativa vinícola de Montolieu, reabre a partir de 20 de junho. Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Montolieu A gaúcha Cérès Franco (1926-2021) foi uma pioneira. Ela inovou a cena artística parisiense depois de se instalar na França nos anos 1950, inicialmente como crítica de arte. Ao organizar uma primeira exposição, em 1962, intitulada "L’oeil de Boeuf", ou Olho de Boi, ela pediu aos artistas que realizassem somente obras em formato redondo ou oval, rompendo com o padrão quadrado vigente e desafiando a estética burguesa. O princípio norteou o seu percurso. Em 1972, ela foi a primeira brasileira a abrir uma galeria de arte em Paris, batizada naturalmente de L’Oeil de Boeuf. Cérès Franco, que conhecia e frequentava todos os grandes artistas da época, de Picasso a Cocteau, defendia uma arte sem fronteiras. Ela também foi uma das primeiras a divulgar na França a arte bruta e naïf brasileira, na época ainda pouco conhecida e marginalizada. A galerista estabeleceu um diálogo entre artistas populares e autodidatas com as vanguardas artísticas do Brasil, da Europa e de outras regiões. Para o diretor da Cooperativa-Museu Cérès Franco, Maximilien Fortier, a “liberdade” define a singularidade da colecionadora brasileira. “O destino de Cérès Franco é particular e muito pessoal. Raramente uma pessoa na história da arte misturou tanto o pessoal e o profissional, especialmente no que diz respeito aos seus amigos, que eram quase todos artistas, para os quais ela solicitava produções com muita frequência. O que também é bastante original é o fato de ela apreciar muito a figuração, a cor e o aspecto internacional. Um termo que a define, e com o qual ela mesma se definia, é, acima de tudo, a liberdade”, afirma Fortier. Em 1995, a brasileira fechou a galeria em Paris e instalou sua vasta e singular coleção de arte moderna e contemporânea em duas casas em Lagrasse, no sudoeste da França, que abriu ao público. Seis anos antes de morrer, ela doou, em 2015, a coleção de 1763 quadros, de artistas de 39 nacionalidades, a Montolieu, um vilarejo de apenas 800 habitantes, mas com 16 livrarias, conhecido como cidade do livro e das artes. A coleção foi instalada em uma antiga cooperativa vinícola. O belo prédio, em estilo art déco, passou por reformas durante três anos para melhorar sua acessibilidade. Antes da reabertura, a instituição ganhou, em dezembro de 2025, o selo de Museu da França. “Integrar a grande rede dos 1.200 museus da França, presentes em todo o território francês, era algo que Cérès Franco desejava conceder à sua coleção para poder preservá-la, especialmente garantindo sua transmissão às gerações futuras”, salienta o diretor. “Temos também a missão de dinamizar a cultura no meio rural e mostrar que todas as nossas regiões possuem pequenos tesouros, como o nosso museu”, acrescenta. Duas exposições na reabertura A Cooperativa-Museu Cérès Franco reabre com duas exposições. A mais importante delas, “Les aventuriers de l’oeil-de-boeuf” ou Os aventureiros do Olho de Boi, reúne 185 obras, de 100 artistas, para retraçar parte de seu percurso e homenagear a colecionadora brasileira. “'Les aventuriers de l’œil-de-bœuf' é uma exposição que reconstrói a trajetória de Cérès Franco entre 1962 e 1972, ou seja, o período em que ela foi curadora e em que vemos que, partindo da crítica de arte e da escrita, ela acabará se tornando galerista”, explica Maximilien Fortier. Artistas de 25 nacionalidades estão representados nessa primeira mostra, entre eles cerca de vinte artistas de origem brasileira. “Essa é uma característica da Cérès Franco, que expôs bastante a arte naïf brasileira e buscou, por meio do 'L’œil de bœuf' e de diversas outras exposições, valorizar as obras de seu país natal”, detalha o diretor do museu. Entre os brasileiros expostos ou que integram a coleção estão Frans Krajcberg, Flávio Shiró, Waldomiro de Deus, Eli Heil, Pedro Paulo Leal e Gontran Netto, que fez o retrato de Cérès Franco no círculo central da bandeira do Brasil. Gontran era um exilado político brasileiro e, assim como ele, outros artistas refugiados da América do Sul ou da Europa do Leste também integram a coleção eclética de Cérès Franco. “Corneille, Chaïbia, Cérès Franco des poèmes pour le monde” ou poemas para o mundo é a segunda exposição montada para a reabertura da Cooperativa-Museu de Montolieu. Desconhecida no Brasil "Estou bastante surpresa e bastante feliz com essa visita", comentou a jornalista brasileira e editora da revista francesa "Beaux Arts" Débora Bertol, que não conhecia muito bem o trabalho de Cérès Franco. “Ela foi uma pioneira da crítica de arte aqui na França, e mesmo na história da crítica de arte, essa galeria L’Oeil de Boeuf foi realmente um lugar superimportante para as vanguardas artísticas da escola de Paris, nos anos 70 e 60”, ressalta a jornalista. Débora Bertol acredita que a reinauguração do Museu Cérès Franco irá contribuir para o devido reconhecimento da brasileira. “Eu acho que a gente vai ouvir falar bastante dela agora, nesses próximos meses. É interessante porque os franceses também vão redescobrir essa personalidade que é interessante não só para o Brasil, em termos de história da arte, da crítica de arte brasileira, mas da França e internacional também, porque ela trabalhava com artistas do mundo todo”, espera. A jornalista, que estudou história da arte e crítica de arte, é categórica ao afirmar que nem no Brasil, onde fez exposições importantes na época da Ditadura Militar, Cérès Franco “é tão conhecida como deveria ser. E talvez esse seja o primeiro passo para restabelecer o papel dela na crítica de arte mundial, como uma brasileira”, torce. Mulher e brasileira Cérès Franco também foi singular ao se impor como mulher e estrangeira em um meio artístico ainda dominado por homens franceses, ressalta Maximilien Fortier. “O fato de ela ser uma mulher extraeuropeia em um ambiente masculino e francês, na Paris dos anos 1960, entre 1962 e 1972, marcou profundamente sua trajetória e fechou muitas portas. No entanto, podemos dizer que tudo terminou bem, já que hoje sua coleção está preservada e integra o patrimônio francês, acessível a todos”, relativiza. Para Débora Bertol, a curadora e galerista brasileira teve uma coragem extrema “porque realmente se lançar numa aventura dessas, sendo estrangeira, sendo mulher, é muito corajoso, é bastante impressionante o percurso dela. Ela deve ter batalhado muito para se impor e conseguir fazer valer a visão dela. Mas ela conseguiu e construiu uma coleção excelente”. As duas exposições de reabertura da Cooperativa-Museu Cérès Franco em Montolieu ficam em cartaz de 20 de junho de 2026 a 3 de janeiro de 2027, quando outras mostras, revelando novos aspectos da coleção e do percurso singular da galerista e curadora brasileira, serão montadas. Para saber como chegar e visitar o Museu Cérès Franco clique no link. A descoberta da região e do museu vale a pena. | — | ||||||
| 6/17/26 | ![]() Na Eurosatory, indústria de defesa brasileira busca espaço em mercado em expansão | Armas, munições, veículos blindados e drones. Em um momento de aumento dos gastos militares e de intensificação das tensões internacionais, a Eurosatory 2026 reúne em Villepinte, na Grande Paris, um dos maiores encontros da indústria de defesa do mundo. Ao circular pelos pavilhões do evento, não é difícil imaginar como é o front. Maria Paula Carvalho, da RFI Em um cenário internacional cada vez mais tenso, países ampliam investimentos em defesa sob o argumento de garantir a paz, impulsionando um mercado em plena expansão. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares globais atingiram 2,7 trilhões de dólares em 2024, o maior valor já registrado, com aumento de 9,4% em relação ao ano anterior. A Eurosatory coincide com a cúpula do G7 na França, que reúne líderes mundiais, incluindo Donald Trump, para discutir os principais conflitos internacionais. "Os gastos e os orçamentos estão aumentando significativamente em todos os países, principalmente na União Europeia. Isso é o que eu chamo de oportunidade", analisou em entrevista à RFI o secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa brasileiro, tenente-brigadeiro Heraldo Luiz Rodrigues, que veio a Paris participar da Eurosatory. O Brasil marca presença, ele destaca. "São 24 empresas brasileiras de defesa expondo nesta feira, que é gigante — talvez a maior do mundo nessa área — e tenho certeza de que vamos fazer bonito e ter resultados expressivos." O setor já movimenta cifras relevantes para o país. "Nós temos muita capacidade, muita tecnologia, empresas excelentes para produção de armamento. Temos cerca de US$ 4 bilhões em exportações por ano — não é uma coisa trivial — e esperamos aumentar esse volume com o passar do tempo", completou. "A indústria de defesa brasileira está preparada para acompanhar esse aumento da produção global," concluiu o tenente-brigadeiro Heraldo Luiz Rodrigues. Com mais de 2 mil expositores de 65 países, a Eurosatory reúne o que há de mais avançado em tecnologia militar. Até sexta-feira (19), empresas e delegações buscam ampliar contatos e fechar negócios. "Ver e ser visto" Entre os brasileiros, a Cinadra aposta na internacionalização. A empresa fabrica componentes para bombas e munições e atua nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. O CEO Marcello de Brito Meira destaca a importância da visibilidade no evento: "É o famoso ver e ser visto, num mercado global. O Brasil já foi um grande player e está voltando a se projetar nesse mercado. Então, para a gente, estar aqui é muito importante." Ele ressalta o modelo de atuação da companhia: "Nós fabricamos no Brasil componentes para bombas, munições de artilharia, infantaria e carros de combate, tudo exportado para o mundo, tecnologia brasileira." E completa: "Vendendo componentes, eu tenho acesso a mais mercados. Eu não sou competidor de ninguém, então consigo fornecer para várias empresas da mesma área." O coronel Antônio Ribeiro, diretor de promoção comercial da Abimde — a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança — afirma que as empresas vêm à feira em busca de diferentes oportunidades: contratos, novos fornecedores, representantes comerciais no exterior e também para fazer benchmarking de seus produtos, avaliando se estão alinhados com a demanda do mercado. "A França é um ponto de encontro. Iremos receber aqui delegações da África, da Ásia e até da América do Sul", completa. "Não somente a França, mas todo esse entorno geográfico acaba refletindo e ressentindo essa movimentação política e geopolítica que a Europa está vivendo, desde o conflito na Ucrânia até essa mudança de postura de outros players. Há também a questão da migração descontrolada, que gera um problema não apenas de defesa, mas de segurança pública. Então, este é um local muito adequado para discutir todos esses aspectos", conclui. "Espaço Brasil" O Espaço Brasil reúne empresas de áreas como comunicação, comando e controle de drones, cibersegurança, engenharia de sistemas e suporte logístico. O estande conta com apoio também da ApexBrasil, agência de promoção de exportações. Para o especialista em negócios internacionais da entidade, Daniel Pirola, a feira tem alcance global: "É a principal feira da Europa. Daqui, a gente consegue vender não só para a Europa, mas também para o Oriente Médio e boa parte da Ásia. Esta feira é uma referência mundial e, para nós, é uma baita oportunidade." Ele destaca ainda o crescimento da participação brasileira: "Este ano, estamos batendo um recorde de expositores." E avalia o contexto internacional: "O mundo inteiro está se armando, isso já é um fato, e tem sido bom também para as empresas brasileiras de defesa." Segundo Pirola, o país oferece uma ampla gama de produtos: "Desde software de sistemas até logística, armas e equipamentos, como coletes à prova de balas. O Brasil tem praticamente tudo o que um Exército precisa." Realizada a cada dois anos, a Eurosatory combina feira comercial, demonstrações militares e debates, refletindo as tensões do cenário geopolítico atual. Em meio a conflitos como a guerra na Ucrânia e a instabilidade no Oriente Médio, a demanda por equipamentos militares cresce no mundo todo. Nesse contexto, o Brasil tenta se posicionar como fornecedor competitivo. Para o general de brigada Diógenes de Souza Gomes, o principal diferencial do país é o capital humano: "A nossa maior capacidade, a nossa maior força é o nosso pessoal. Temos um recurso humano diferenciado (...) quando falamos que estamos um pouco atrasados em tecnologia, talvez seja por falta de investimento." Ele ressalta, no entanto, as limitações orçamentárias. "O Exército tem restrições que acabam limitando esse avanço tecnológico", aponta. Apesar disso, destaca avanços concretos: "Hoje, o Brasil detém a tecnologia de um míssil anticarro fabricado totalmente no país, no estado da arte, com um custo muito reduzido." E reafirma o papel institucional da força: "O Exército brasileiro mantém sua missão de defesa da soberania e da segurança das nossas fronteiras, protegendo um país gigantesco, com riquezas incontáveis." Restrita a profissionais credenciados, entre militares, autoridades e representantes da indústria, a Eurosatory inclui conferências, demonstrações ao vivo e espaços dedicados à inovação. No conjunto, o evento se consolida como uma das principais vitrines globais do mercado de defesa. | — | ||||||
| 6/12/26 | ![]() Entre milagres e casamentos: a fascinante história de Santo Antônio✨ | Santo Antôniofestas juninas+4 | Letícia Fonseca-Sourander | RFI | PortugalBrasil+3 | Santo Antôniocasamento+5 | — | 5m 53s | |
| 6/4/26 | ![]() Roland-Garros: nova geração projeta ciclo promissor para o tênis brasileiro✨ | tennisRoland-Garros+3 | Marcelo Demoliner | — | BrasilParis | tennisBrazil+5 | — | 7m 11s | |
| 5/28/26 | ![]() Entre o calor e a paixão pelo tênis: brasileiros inflamam as arquibancadas em Roland-Garros✨ | tennisRoland-Garros+5 | — | — | ParisBrasil | Roland-Garrostennis+8 | — | 6m 54s | |
| 5/25/26 | ![]() Ser ou não ser português: acesso à cidadania para descendentes de judeus sefarditas chega ao fim✨ | cidadania portuguesadescendentes de judeus sefarditas+4 | Letícia Fonseca-Sourander | RFIUniversidade Técnica de Lisboa+1 | PortugalLisboa | cidadaniajudeus sefarditas+6 | — | 5m 50s | |
| 5/21/26 | ![]() Coprodução brasileira 'Seis Meses no Prédio Rosa e Azul' é elogiada pela crítica em Cannes✨ | filmCannes+4 | Adriana Brandão | RFILibération+1 | — | CannesBruno Santamaría Razo+5 | — | 6m 46s | |
| 5/20/26 | ![]() Especialistas e campeões mundiais analisam convocação de Neymar para Copa do Mundo de 2026✨ | Copa do Mundoconvocação+4 | Carlos Eduardo Mansur | RFISantos | — | NeymarCopa do Mundo+5 | — | 11m 31s | |
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| 5/14/26 | ![]() ‘Convite para não vir’: aumento de taxas para estrangeiros em universidades da França preocupa brasileiros✨ | educaçãotaxas de matrícula+3 | — | RFI | FrançaUnião Europeia | taxas de matrículaestudantes brasileiros+3 | — | 6m 02s | |
| 5/4/26 | ![]() Escritos de Mario de Andrade sobre a música brasileira ganham edição inédita em francês✨ | musicBrazilian culture+3 | — | Philharmonie de ParisMacunaíma+1 | — | Mario de AndradeBrazilian music+3 | — | 11m 52s | |
| 5/1/26 | ![]() Após recorde de afastamentos, nova regra trabalhista entra em vigor com foco na saúde mental✨ | trabalhosaúde mental+3 | Luciana Gisele Brun | INSSFaculdades Integradas de Taquara | — | saúde mentaltrabalho+5 | — | 8m 31s | |
| 4/28/26 | ![]() Queda de 48% no turismo afeta moradores e agrava crise econômica em Cuba✨ | tourism declineeconomic crisis+3 | Pedro Pannunzio | — | CubaHavana | Cubatourism+5 | — | 4m 56s | |
| 4/24/26 | ![]() Diversidade do design brasileiro conquista Salão do Móvel de Milão✨ | designBrazilian furniture+4 | Júlia Valente | Associação Brasileira das Indústrias do MobiliárioApex Brasil+1 | — | Salão do MóvelBrazilian design+6 | — | 6m 01s | |
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| 4/22/26 | ![]() 'Infância destruída’: famílias denunciam abusos sexuais em pré-escolas e prefeitura de Paris reage | As denúncias de crimes sexuais cometidos contra crianças matriculadas em atividades de recreação nas pré-escolas de Paris vêm provocando forte mobilização de pais e associações de proteção à infância. A pressão sobre as autoridades municipais é tamanha que o novo prefeito da capital, o socialista Emmanuel Grégoire, recém-eleito, anunciou o combate a esse tipo de violência como uma das prioridades de seu mandato. Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris Uma das vítimas é filha de Marie (nome fictício), mãe profundamente traumatizada pelo estupro sofrido pela menina quando tinha apenas quatro anos. A criança foi violentada por um agente de recreação em uma escola do 13º distrito de Paris, onde cerca de 15 casos semelhantes foram registrados. Para preservar sua identidade, o nome da mãe foi alterado. "Ela foi estuprada por um agente de recreação. Ele também fazia com que as crianças o tocassem e se tocassem entre elas, nas partes íntimas, e dizia que, se elas contassem alguma coisa, os pais morreriam. Que elas deveriam guardar segredo. Você imagina o traumatismo que isso provoca?", questiona. Sete anos depois, a família segue marcada pelo trauma. A menina vive em estado permanente de estresse, agonia e raiva, sendo acompanhada por psicólogos, o que também representa um alto custo financeiro. “Ninguém nos ajuda”, afirma a mãe. Ao tomar posse em 29 de março, Emmanuel Grégoire destacou o problema em seu discurso, prometendo identificar os responsáveis pelas agressões. Desde o início de 2026, apenas em Paris, 78 agentes de recreação foram suspensos, dos quais 31 por suspeita de crimes sexuais. Diante desses números, o prefeito anunciou uma revisão completa dos procedimentos, com “tolerância zero”. Segundo ele, será criada uma comissão independente para reavaliar os processos de contratação, os mecanismos de denúncia e os sistemas de controle. "Devemos proteger nossas crianças e criaremos um grupo de escuta dos pais para casos suspeitos", acrescentou. Paris anuncia plano milionário para proteger crianças A prefeitura aprovou um plano orçado em € 20 milhões, que inclui a revisão da formação profissional dos agentes, o aprimoramento do atendimento às denúncias, apoio às vítimas e a aplicação de sanções. Em entrevista recente, Emmanuel Grégoire revelou carregar uma “cicatriz interna” após ter sido vítima de violências sexuais durante vários meses quando tinha menos de dez anos, inclusive em uma piscina municipal. O caso de Paris se insere em um contexto mais amplo: a França enfrenta uma explosão de denúncias de pedofilia envolvendo profissionais responsáveis por atividades extracurriculares, fora do período de aulas. As vítimas têm entre 3 e 5 anos, e os casos incluem estupros e atos repetidos de violência sexual. A situação se agravou este ano com a revelação de episódios graves em pelo menos três escolas da capital. Esses trabalhadores, vale destacar, não são vinculados ao Ministério da Educação. A explicação é de Elisabeth Guthmann, cofundadora do grupo SOS Périscolaire, coletivo criado em 2021 por pais e profissionais para denunciar, documentar e combater a violência no ambiente extracurricular. Segundo Guthmann, na maioria das famílias francesas ambos os pais precisam trabalhar para garantir a subsistência, o que levou as prefeituras a criarem serviços de acolhimento antes e depois do horário escolar. No entanto, ela alerta para falhas estruturais nesses programas. “Faz cinco anos que alertamos para graves disfunções nos programas extracurriculares em Paris e em todo o país. Temos denunciado a violência física, psicológica e sexual desde 2021 e, até muito recentemente, a Prefeitura de Paris se recusava a nos ouvir, a ouvir todas as famílias", disse em entrevista à RFI. A ampla cobertura da imprensa desde o ano passado, no entanto, levou a uma conscientização coletiva e forçou o anúncio de medidas. "Isso criou uma conscientização coletiva", ela destaca. Trauma precoce Os momentos considerados de maior vulnerabilidade para as crianças incluem idas ao banheiro, períodos de soneca, atividades de leitura em salas fechadas e até mesmo os refeitórios. As consequências dos abusos, segundo Guthmann, são profundas e duradouras. Casos documentados desde 2018 revelam crianças estupradas aos três anos que ainda hoje sofrem sequelas físicas e psicológicas graves, incluindo sintomas de estresse pós-traumático. Para o coletivo Me Too École, o fato de o prefeito ter tornado público seu próprio passado de vítima não altera o sofrimento cotidiano de muitas famílias. Anabel, uma das fundadoras do grupo, lembra que as famílias confiam na escola como espaço de formação e proteção. “As crianças não têm armas para se defender. A escola deveria ser um santuário, mas infelizmente não é mais assim”, afirma. Ela também questiona a atuação de Emmanuel Grégoire no passado, quando um relatório de 2015 já apontava problemas e ele era responsável pelo recrutamento dos agentes. Segundo Anabel, na época nenhuma medida foi tomada, ao contrário do discurso de excelência adotado pela prefeitura. Outro entrave apontado pelo coletivo é a lentidão das autoridades e da Justiça no combate a esses crimes. "Apenas 3% dos pedófilos são julgados, porque há dificuldade em recolher e levar a séerio os depoimentos das crianças," explica. Para Anabel, é essencial uma articulação coletiva. "É preciso reunir todos — as prefeituras, a polícia, o Ministério Público e o Ministério da Educação. Sem isso, não será possível implementar um protocolo para proteger as crianças, uma vez que cada instituição tem seus próprios interesses", aponta. Após um ultimato dos pais, a prefeitura de Paris prometeu divulgar estatísticas trimestrais sobre suspensões de agentes de recreação, dados que até então eram de difícil acesso. Para Elisabeth Guthmann, trata-se de um avanço. “É um bom começo, foram anunciadas medidas que reivindicamos desde 2021, mas ainda há muito a ser feito, para garantir segurança às crianças”, disse à RFI. Entre as principais demandas está a criação de um sistema de denúncia realmente eficaz. Até agora, relatos feitos pelos pais frequentemente não chegavam às instâncias superiores, esbarrando em disputas de responsabilidade entre escolas e programas extracurriculares. O coletivo defende que, diante de qualquer denúncia, o agente seja imediatamente suspenso, que investigações administrativas sejam rápidas, que os relatórios sejam entregues às famílias e que o Ministério Público seja automaticamente informado. Sem respostas adequadas, muitas famílias vivem sob constante medo. A de Marie decidiu se mudar para o interior. Mesmo assim, o trauma persiste. Sete anos depois, a filha, hoje com 11 anos, afirma que só conseguirá viver normalmente quando o agressor estiver preso. O medo de que ele volte a atacá-la permanece. “A infância dela foi destruída. Não há mais alegria despreocupada. Nossa vida familiar foi destruída”, conclui a mãe. | — | ||||||
| 4/17/26 | ![]() Portugal deixa centenas em lista de espera para tratamento na prevenção do HIV | Portugal continua sem avançar na implementação de um projeto considerado essencial para ampliar o acesso à PrEP, medicamento altamente eficaz na prevenção do HIV. Apesar de ter sido aprovado, o programa permanece sem financiamento, travando a expansão de uma das principais ferramentas de saúde pública no combate às novas infecções. Lizzie Nassar, correspondente da RFI em Portugal A PrEP (profilaxia pré-exposição) é um medicamento de uso regular por pessoas HIV-negativas que estão em maior risco de exposição ao vírus. Quando tomada corretamente, a proteção pode chegar a 99%. Ele faz parte de uma estratégia de prevenção amplamente recomendada por entidades como a ONUSIDA e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças. Mas em Portugal, a cobertura atual do medicamento está muito abaixo das necessidades identificadas por especialistas. A denúncia é feita por organizações do setor, que alertam para um bloqueio financeiro que impede a resposta a centenas de pessoas em risco. No centro desta crítica está Luis Mendão, diretor do GAT (Grupo de Ativistas em Tratamentos), que descreve um cenário de procura crescente e capacidade limitada. “O projeto foi aprovado, mas não teve financiamento. E sem financiamento não é possível avançar”, resume o responsável. Três organizações, o GAT, Grupo de Ativistas em Tratamentos, a Abraço e a Liga Portuguesa Contra a Sida, propõem criar um modelo de acompanhamento comunitário da PrEP, mais próximo da população e menos dependente da estrutura hospitalar do Serviço Nacional de Saúde. Segundo as organizações, o dispositivo permitiria aumentar rapidamente o número de pessoas em prevenção ativa. Estima-se que entre 6.000 e 6.500 pessoas estejam em PrEP em Portugal. No entanto, os dados indicam que seria necessário alcançar pelo menos 20.000 pessoas para começar a reduzir de forma significativa a transmissão do HIV, e até 40.000 pessoas para atingir objetivos alinhados com metas internacionais até 2030. Um investimento total de cerca de € 3 milhões por ano. “Estamos muito longe do mínimo necessário para ter impacto na epidemia”, afirma Luís Mendão. O projeto de expansão da PrEP prevê o acompanhamento descentralizado de pessoas em risco através de equipes especializadas em contexto comunitário, reduzindo pressão hospitalar e acelerando o acesso. Na prática, o bloqueio é financeiro. O GAT estima que o custo de acompanhamento comunitário por pessoa seja de € 300, num total de 10 mil pessoas por ano, dependendo do modelo de implementação. Ainda assim, não houve alocação de verba específica para iniciar o programa em 2025. As organizações insistem nas vantagens do dispositivo, que tornam-se ainda mais evidentes quando se compara com o custo do tratamento do HIV, que é vitalício e recai integralmente sobre o sistema público de saúde. “É mais barato prevenir do que depois tratar pelo resto da vida o HIV”, sublinha Luís Mendão. Lista de espera crescente e capacidade limitada Enquanto o projeto não avança, a resposta existente está sobrecarregada. O GAT acompanha atualmente cerca de 400 pessoas em PrEP, mas já tem mais de 700 pessoas em lista de espera. A organização foi obrigada a suspender novas admissões devido à falta de financiamento para equipes médicas e de enfermagem. “Temos mais de 700 pessoas à espera e não conseguimos abrir novas vagas porque não temos condições financeiras para expandir a resposta”, explica o responsável. Este bloqueio acontece num contexto em que a procura continua aumentando, especialmente entre populações consideradas mais expostas ao risco de infeção. No modelo atual, o acesso à PrEP no SNS (sistema nacional de saúde português), depende sobretudo de consultas hospitalares especializadas. Segundo as organizações, os tempos de espera podem atingir até um ano para a primeira consulta. Na prática, isso cria um sistema desigual: quem consegue pagar recorre ao setor privado e acede mais rapidamente ao tratamento preventivo; quem depende do sistema público entra numa fila de espera prolongada. Além do projeto comunitário bloqueado, as organizações alertam para a ausência de financiamento estável para atividades essenciais de prevenção e rastreio. Em 2024, o GAT realizou mais de 40 mil testes rápidos de HIV, representando mais de metade dos 68 mil testes oficiais realizados no país. Em 2025, ultrapassou os 45 mil testes, mas teve de limitar a sua atividade por falta de recursos. Segundo os responsáveis, a dependência das ONG para o rastreio e prevenção evidencia uma fragilidade estrutural do sistema. Meta distante até 2030 Portugal comprometeu-se com metas internacionais (ONUSIDA) para reduzir drasticamente novas infeções por HIV até 2030. No entanto, com a cobertura atual de PrEP muito abaixo do necessário e projetos de expansão sem financiamento, organizações alertam para um desequilíbrio crescente entre objetivos e realidade. “Se queremos cumprir as metas de saúde pública, precisamos de escala. E escala exige investimento”, resume Mendão. Enquanto isso, centenas de pessoas continuam em lista de espera para um tratamento preventivo já reconhecido como altamente eficaz – mas ainda fora do alcance de todos os que dele necessitam. | — | ||||||
| 4/3/26 | ![]() Festival Back2Black realiza sua primeira edição em Paris, com Gilberto Gil no line-up | Após ter encerrado a turnê "Tempo Rei" no Brasil, no último fim de semana, Gilberto Gil desembarcou em Paris, onde emplaca o line-up do festival Back2Black nesta sexta-feira (3), com ingressos esgotados há semanas. Ao lado de filhos e netos, ele subirá no palco no célebre Théâtre du Châtelet para apresentar os grandes sucessos de seus mais de 60 anos de carreira. Daniella Franco, da RFI em Paris O festival Back2Black é realizado desde 2009, com 12 edições no Rio e uma em Londres, em 2012. Em Paris, o evento foi inicialmente pensado para ocorrer em 2025, durante a Temporada Cultural França-Brasil. No entanto, a organização se estendeu, levando o festival a coincidir com o encerramento da turnê "Tempo Rei", na qual Gil se despediu dos grandes palcos no Brasil, reunindo mais de um milhão de fãs. A edição parisiense do Back2Black tem o formato de um dia, mas conta com uma rica programação. Entre as atrações, está a exposição do artista plástico Carybé e duas sessões de projeção do documentário "3 Obás de Xangô", de Sérgio Machado, às 16h30 e às 18h. A festa começa com o Baile Bom no Grand Foyer do teatro, seguido de um DJ set da luso-guineense Umafricana, às 19h. Em seguida, a cantora brasileira Agnes Nunes e o artista camaronense Blick Bassy entram em cena às 20h e o espetáculo se encerra com chave de ouro, com o show de Gilberto Gil, às 21h20. "O Back2Black foi criado no sentido de levar para o Brasil uma África contemporânea que era pouco conhecida, principalmente quando eu comecei o festival, em 2009", diz a idealizadora e diretora do Back2Black, Connie Lopes. "Nesta época, havia muito poucos artistas contemporâneos africanos que iam ao Brasil. A África ainda era algo muito folclórico no Brasil e as pessoas conheciam muito pouco sobre essa cultura pulsante que é a cultura africana", reitera. Connie, que conhece Gilberto Gil há mais 40 anos, ressalta a relação do cantor e compositor com o público francês. "Eu viajei muito com Gil no início dos anos 1990, eu vim muitas vezes com ele à França, então sei do carinho que ele recebe em cada país. Na França, ele sempre teve uma acolhida muito, muito grande", lembra. Apesar de não ter detalhes sobre o repertório que será apresentado nesta noite, Connie garante que será um momento especial. "Gil é Gil, um símbolo tão forte! Qualquer show dele, seja acústico, solo com violão, junto a uma banda de quinze pessoas, a gente sempre sai de alma lavada", afirma. Gil: um tesouro nacional Nascido em 26 de junho de 1942 em Salvador, na Bahia, Gilberto Gil é um dos maiores artistas do Brasil, pilar da MPB. Junto de Caetano Veloso, Gal Gosta e Tom Zé, fundou o Tropicalismo, movimento artístico que revolucionou a cultura brasileira na década de 1960. Com mais de 50 álbuns lançados e oito Grammys, é muito mais que um músico, e alcança um status de tesouro nacional. Na política, Gil teve participação ativa na resistência à ditadura militar, chegando a ser preso e tendo de se exilar. Teve também um papel importante na vida pública: foi ministro da Cultura entre 2003 e 2008, onde promoveu políticas voltadas à diversidade cultural. "Ao longo do tempo, ele vai incorporando no imaginário, tanto no Brasil como no exterior, uma ideia de alegria, de resiliência e de uma reflexão ativa", avalia Sheyla Diniz, professora e pesquisadora colaboradora do Departamento de História da USP. "O professor e crítico literário José Miguel Wisnik se refere a Gil num texto como 'o bom pastor'. É como se ele conduzisse e fosse um intelectual orgânico daquilo que ele faz. O Gil está pensando o Brasil o tempo todo", destaca. Segundo Sheyla, essa encarnação da brasilidade também ajudou o artista baiano a se posicionar na cena internacional como um dos músicos mais importantes do país. "O mercado europeu, principalmente a França, se interessam pela música brasileira. A marca Brasil tem uma marca simbólica muito grande neste mercado e o Gil sabe trabalhar muito bem com essa marca. Ele explora símbolos de brasilidade sendo ao mesmo tempo internacional", aponta. Além disso, a professora e pesquisadora destaca o papel que Gil incorpora de mediador cultural do Atlântico Negro, título de uma das obras do sociólogo britânico Paul Gilroy. Sheyla lembra que a partir do momento em que ele é obrigado a se exilar pelo regime militar e chega em Londres, Gil tem contato com artistas e intelectuais da diáspora africana no Reino Unido. Esses encontros desembocarão em uma viagem que o baiano faz para Lagos, na Nigéria, um capítulo de sua vida que resultará no álbum "Refavela", de 1977, uma homenagem aos laços entre o Brasil e a África. "Gil assume um papel muito importante na revitalização das práticas afro-diaspóricas brasileiras, e vai se construindo mesmo como um músico intelectual negro. Estabelece parcerias com Jimmy Cliff, regrava 'No, Woman, No Cry', do Bob Marley", exemplifica. "Ou seja, é impossível não olhar para o Gil e entendê-lo nesse papel. Ele foi conseguindo essa entrada no mundo como intelectual e músico que pensa o lugar do Brasil e dos negros do Brasil no mundo", conclui. Depois de Paris, Gil passa pela Itália, com shows em Roma, em 6 de abril, e Milão, em 8 de abril, e Porto, em Portugal, em 10 de abril. Em julho, Gil volta para a Europa para outras três datas em Londres, dia 7 de julho, Cascais, em Portugal, em 8 de julho, e Perugia, na Itália, em 10 de julho. | — | ||||||
| 3/30/26 | ![]() Coleção de crítico Roberto Pontual é vendida em primeiro leilão dedicado à arte brasileira na França | A coleção pessoal do crítico de arte brasileiro Roberto Pontual será leiloada em Paris nesta terça-feira (31). Trata-se da primeira venda na França dedicada exclusivamente a obras brasileiras. Reunido ao longo de décadas, o acervo reúne cerca de 150 peças de mais de 60 artistas contemporâneos, produzidas entre 1945 e 1994 – um conjunto que Vincent Wierink, ex-companheiro de Pontual, descreve como sendo “de afeto”. Crítico de arte, jornalista e poeta, Roberto Pontual marcou a cena artística carioca dos anos 1970. Após dirigir programas educativos e exposições no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), consolidou-se como uma voz influente, especialmente por meio de suas crônicas no Jornal do Brasil e da curadoria de exposições emblemáticas, como a representação brasileira na Bienal de Veneza em 1980. Seu livro Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, publicado em 1969, quando Pontual tinha apenas 30 anos, permanece como obra de referência no mundo das artes. Além disso, ele publicou diversos ensaios e catálogos sobre arte contemporânea. Em 1980, mudou-se para Paris, onde continuou atuando como crítico e curador até sua morte, em 1994, em decorrência da AIDS. Sua coleção reúne obras de artistas brasileiros contemporâneos emblemáticos, muitos deles amigos próximos de Pontual, como Paulo Roberto Leão, Carlos Scliar, Ione Saldanha, Alair Gomes, Glauco Rodrigues, Antonio Bandeira, Frans Krajcberg, Ivan Serpa, Cildo Meireles e Wanda Pimentel. O acervo foi constituído por meio de compras espontâneas em visitas a ateliês, presentes de artistas, trocas e até pagamentos por prefácios, catálogos ou curadorias. Um retrato de afeto Segundo Vincent Wierink, a coleção é “tanto um retrato da arte brasileira da segunda metade do século XX quanto um verdadeiro retrato de Pontual”, um homem apaixonado pelos artistas e que não tinha a intenção de ser colecionador. “Ele era uma pessoa que não tinha verdadeiramente uma preferência. Tinha um respeito tão grande pelos artistas que o leque de seu interesse era enorme. Ele passava pela fotografia, escultura, pintura, abstrato, figurativo, conceitual”, diz Wierink, legatário universal de Roberto Pontual e herdeiro de sua obra e de sua coleção. Ele conta que a decisão de vender um acervo tão pessoal, cujas peças decoravam o apartamento que o casal compartilhava, não foi simples. “Para mim, mergulhar novamente na coleção foi quase uma catarse, um movimento muito emocional. Eu redescobri a coleção, que estava escondida há mais de 30 anos.” “Logo após a morte do Roberto, em 94, eu tive que mudar tudo na minha vida. Tive que mudar de apartamento. Era quase insuportável ficar lá. Então mudei, empacotei a coleção inteira e pronto. Mudei de vida, mudei de lugar. Não vou dizer que esqueci a coleção, obviamente não, mas ela ficou guardada”, lembra. “No fim do ano passado, pensei: ‘estou avançando na idade, e se acontece alguma coisa comigo, o que vai ser dessa coleção? Ninguém conhece essa coleção’", explica Wierink, que decidiu então entrar em contato com Salomé Pirson, da casa de leilões independente Maurice Auction, que chamou a consultora de arte brasileira radicada em Paris, Maria do Mar Guinle. “Quando elas viram a coleção, tiveram uma reação imediata: a Salomé disse que era possível sentir uma alma por trás dela, e a Maria do Mar comentou que era uma coleção de afeto”, lembra. “Roberto, obviamente, tinha muito afeto e amizade por um grande número de artistas. Acho que não havia um artista que não gostasse do Roberto. Ele era uma pessoa luminosa, carismática, que queria o bem das pessoas. Às vezes eu digo que ele era mais um analista de arte do que um crítico. Não distribuía bons e maus pontos. Ele realmente ajudava as pessoas a se expressar, a atravessar crises”, diz Wierink. Uma aposta “Nunca houve uma venda de arte brasileira moderna na França. Mas é uma aposta”, afirma, lembrando que chegou a considerar realizar o leilão em Nova York ou no Brasil, mas decidiu rapidamente por Paris. “Tudo bem nunca ter sido feito. Tudo bem fazermos uma aposta. Mas há também uma lógica para mim. É como se o círculo se fechasse. Roberto escolheu – bom, nós nos conhecemos e, por causa do nosso encontro, ele decidiu mudar de vida, deixar o Brasil e se radicar em Paris. Ele amou profundamente a França, amou profundamente a Europa. Então era natural, mais lógico, que a coleção fosse vendida na cidade onde ele escolheu viver e onde faleceu", diz. O leilão será realizado às 15h em Paris (11h em Brasília). Uma parte do montante arrecadado será dedicada à organização francesa de luta contra o HIV, Sidaction. | — | ||||||
| 3/29/26 | ![]() Influência da gastronomia brasileira na cozinha portuguesa reforça laços culturais entre os dois países | Como toda pessoa que um dia decidiu mudar de país, a enorme comunidade brasileira que escolheu Portugal para viver trouxe na bagagem muito mais do que a saudade. O arroz com feijão, a farofa no domingo e o pão de queijo são frequentes nas mesas dos imigrantes brasileiros neste outro lado do Atlântico. Aromas, sabores, ingredientes e o nosso jeito de cozinhar têm conquistado paladares mundo a fora. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa Nos últimos anos, Portugal viu crescer endereços onde o Brasil é a grande estrela, da comida de rua reinventada à cozinha de autor. Um cenário totalmente diferente dos rodízios de carne que durante muito tempo foram sinônimo de comida brasileira em terras lusitanas. Hoje, até mesmo em alguns restaurantes portugueses, é possível pedir uma moqueca de camarão com azeite de dendê e feita em panela de barro. Verdade seja dita, este prato nasceu na África, atravessou o oceano e criou raízes na Bahia. A versão servida no Cantinho do Avillez, um dos restaurantes do chef estrelado José Avillez, é a Moqueca do Mar, que é uma combinação de corvina com camarão e um toque de amendoim. Comida é memória, afeto e origem Outra estrela da gastronomia lusitana é Kiko Martins, conhecido por ser um chef ousado e criativo em seus cinco restaurantes lisboetas. Em um deles, o Boteco, dedicado à cozinha brasileira, há no cardápio dadinhos de tapioca, pão de queijo, pastéis de vento, feijoada, picanha e bolo brigadeiro. Filho de pai português e mãe pernambucana, o chef passou sua infância no Rio de Janeiro e explica que quis abrir este espaço para honrar a sua herança familiar. Graças ao talento de chefs o Brasil tem proporcionado descobertas que vão muito além dos clichês: um peixe grelhado com manteiga de maracujá ou uma picanha com farofa de mandioca e legumes na brasa com rapadura são exemplos da criatividade que tem feito a cozinha brasileira brilhar e ser mais respeitada. A chef sergipana Lizandra Almeida é uma estrela em ascensão. Ela estudou no renomado Le Cordon Bleu do México, graças a uma bolsa de estudos e depois trabalhou com grelhados em restaurantes de São Paulo. Agora, aos 31 anos e vivendo há três anos em Lisboa, Lizandra foi uma das finalistas na categoria chef revelação do prestigiado prêmio Mesa Marcada, que reconhece os talentos da gastronomia em Portugal. Ela, que trabalha com grelhados no Pils Grill Eatery, conta como recebeu a notícia de que tinha sido indicada ao prêmio. Ainda em São Paulo, ao ter contato com o processo de defumação da carne, Lizandra se apaixonou por este mundo e quis conhecer mais as técnicas. Ela relembra que teve bastante dificuldade por ser um universo bem masculino e fechado. “Foi desafiador, consegui me destacar e também alcançar as possibilidades de entrar para o meio, porque eu era sempre vista como a menina que estava ali para fazer a sobremesa e não para trabalhar com a carne”, recorda. Na opinião da chef, o aumento significativo da comunidade brasileira em Portugal – há cerca de 500 mil brasileiros residentes em terras lusitanas – explica esta “invasão” da nossa gastronomia. A relação luso-brasileira é também marcada pela gastronomia Durante os séculos que o Brasil foi colônia de Portugal os hábitos alimentares sofreram transformações profundas. Ingredientes essenciais dos povos indígenas como a mandioca e dos africanos como o azeite de dendê foram em parte substituídos pela comida que os portugueses estavam habituados a comer. A fritura dos alimentos é uma herança portuguesa e os doces bem açucarados começaram a surgir no Brasil com a chegada da família Real Portuguesa. O sociólogo e historiador Gilberto Freyre, autor de Casa Grande e Senzala, dizia que a influência da culinária portuguesa se manifestava de maneira mais forte no litoral - do Maranhão ao Rio de Janeiro - enquanto a africana sobressaia na Bahia e a indígena no norte do país. Já na década de 1960, Luís da Câmara Cascudo, um dos mais respeitados folcloristas brasileiros, escreveu em sua “História da alimentação do Brasil” que o patrimônio culinário brasileiro não possuía o peso do regionalismo, e sim, da miscigenação entre as cozinhas indígenas, africanas e portuguesas. Um dos símbolos mais emblemáticos da nossa culinária, a feijoada, teria raízes no cozido português, que no Brasil foi adaptado com o feijão preto. Para Câmara Cascudo, a feijoada como conhecemos hoje seria uma combinação criada apenas no século XIX. Décadas depois, os modernistas a elegeram prato nacional – onde influências portuguesas, africanas e indígenas se misturam - na construção de uma identidade brasileira. “Esta identidade da gastronomia brasileira está ainda em processo, não é uma realidade pronta”, costumava afirmar o historiador e membro da Academia Brasileira de Gastronomia, Ricardo Maranhão. “Nós passamos 150 anos valorizando a gastronomia estrangeira e não demos bola para a cozinha nacional.” Maranhão destacava a importância da culinária mineira, da amazônica, assim como as do litoral e do sertão do nordeste, a afrobrasileira da Bahia, a gaúcha e a do centro-oeste. “A gastronomia define nossa identidade tanto quanto os sons do samba, a arquitetura barroca ou modernista”, lembra o sociólogo Carlos Alberto Dória, especialista em cultura culinária. É inegável o espaço e prestígio que a gastronomia brasileira tem conquistado no exterior. Hoje em Portugal, além da cozinha autoral, há pão de queijo nas padarias e supermercados do país, brigadeiros nas festas infantis e lojas de doces, farofas como acompanhamento nas churrascarias. É o Brasil usando sua culinária como soft power para reforçar, ainda mais, os laços culturais entre os dois países. | — | ||||||
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